terça-feira, 14 de outubro de 2008

CIEP 311 - Deputado Bocayuva Cunha
















CIEP331 DEPUTADO BOCAYUVA CUNHA.

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O uso dos Multimeios digitais como suporte metodológico no processo didático da Educação Matemática

Até a década de 1990, a grande maioria dos professores de matemática utilizava como suporte metodológico, na elaboração de suas atividades docentes, basicamente o livro didático. A fonte maior de informação, a partir do advento dos multimeios digitais, foi virtualizada. Concomitantes a esse advento geraram-se resistências.
O processo de mudança no processo de ensino e aprendizagem é caracterizado por resistências, principalmente na inserção de novas tecnologias no processo educacional. Sancho (2001, p. 43) refere-se a essas resistências como tecnofobia. Para exemplificar essas mudanças ela recorre a postura de Sócrates perante a utilização da escrita:

"Segundo Platão, no diálogo de Fedro, Sócrates considerava que "se os homens aprenderem a escrita, o esquecimento será implantado em suas almas. Deixarão de exercitar a memória porque confiarão no que está escrito, dando a palavra a palavras que não podem falar em sua própria defesa ou apresentar a verdade de forma adequada”. É preciso observar que o pensamento de Sócrates pode chegar às gerações futuras por meio dos escritos de Platão."

O humano em geral resiste às mudanças. No meio educacional as mudanças estão além das inovações tecnológicas, elas devem ser explicadas de forma ampla pelos modelos antropológicos e culturais. A não linearidade e longa duração observadas nessas mudanças levam a construção de programas de formação que deverão incidir sobre a prática pedagógica. Segundo Sacristán (1995, p. 77) esses programas dividem-se em quatros grandes campos:
professor e a melhoria, ou a mudança, das condições de aprendizagem das relações sociais na sala de aula.
professor participando activamente do desenvolvimento curricular, deixando de ser um mero consumidor.
professor participando e alterando as condições da escola.
professor participando na mudança do contexto extra-escolar.
Em minha caminhada profissional, e durante minha pesquisa de Mestrado, pude constatar que o uso do computador pelo professor de matemática é restrito e de baixa qualidade. Neste momento pretendemos nos ater ao uso como fonte de pesquisa e informação para potencializar o professor de matemática em sua trajetória acadêmico-didática.
A Internet possui uma gama de informações ampla e diversificada. A partir dessa constatação precisamos responder a algumas questões: Como realizar uma triagem dessas informações? Como utilizá-las de forma significativa no processo de ensino e aprendizagem?
Num primeiro instante, vale considerar que o processo ensino e aprendizagem não é estacionário, isto é, modifica-se em suas múltiplas variáveis e pode ser diferenciado, por exemplo, em cada prática pedagógica, ou interesse de investigação, mesmo se apoiado em teorias iguais ou análogas com direcionamentos sob uma determinada tendência da Educação Matemática. Na sociedade contemporânea, muito se tem discutido e pesquisado sobre essas diferenciações.
A subjetividade, elemento chave da pós-modernidade, nos remete ao sujeito e suas diversidades. O padrão analítico do conhecimento inerte e pronto se desconfigura, pois agora o conhecimento é construído por um sujeito aprendiz atuante, e o objeto – o conhecimento – está sempre em construção, modificando-se. Este novo caminho de pensar o sujeito, o objeto e suas interações têm levado alguns dos pesquisadores a realizar profundas análises sobre esta temática.
O papel do professor no processo ensino e aprendizagem vêm mudando ao longo dos tempos, sendo que, na atualidade, é praticamente um consenso que o professor deve ser um “articulador habilidoso” do saber, respeitando em suas estratégias de ensino a pluralidade cultural, e a multiplicidade de apanhamentos do saber existente no grupo de alunos. Como orientação o Ministério da Educação do Governo Federal do Brasil, sugere que:

"Numa perspectiva de trabalho em que se considere a criança como protagonista da construção de sua aprendizagem, o papel do professor ganha novas dimensões. Uma faceta desse papel é a de organizador da aprendizagem [...] o professor também é consultor nesse processo [...] mediador, ao promover a confrontação das propostas dos alunos [...] controlador ao estabelecer as condições para a realização das atividades, sem esquecer de dar o tempo necessário aos alunos [...] incentivador de aprendizagem [...] (PCN, 2000, p. 40-41)."

Nessa perspectiva salientamos que as mídias de massa, originadas a partir do advento das tecnologias energia elétrica e eletrônica, vão desempenhar um papel crucial no processo de divulgação das informações. Todos os indivíduos terão acesso às informações

"As telecomunicações são de fato responsáveis por estender de uma ponta à outra do mundo as possibilidades de contato amigável, de transações contratuais, de transmissões de saber, de trocas de conhecimentos, de descoberta pacífica das diferenças (LÉVY, 1999, p. 14)."

Ao longo desse processo de construção e reconstrução das mídias tecnológicas o foco do processo de ensino e aprendizagem experimentou um processo migratório em seu objeto da informação para o sujeito aprendiz, o que também deveria ter ocorrido com os docentes. Um problema e uma solução emergem. O problema é que o poder manipulativo das informações surge como forma controladora dos saberes. A transgressão possibilitada por essas mídias – via canais de rádio e televisão piratas; e mais recentemente via Internet – criam uma rede intercomunicativa independente capaz de construir conhecimento sem sofrer grandes bloqueios paradigmáticos impostos pela comunidade científica dominante, apresentando-se como uma solução para a questão da dominação. Surge uma cultura independente, sem poderes centrais, a Cibercultura, conceito desenvolvido por Lévy (1999, p. 17) “[...] conjunto de técnicas (materiais e intelectuais), de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço”.
O movimento espaço-tempo no mundo tecnológico está caracterizado pela não fixação da informação, incluindo os saberes, designando a estas entidades um caráter virtual. Ser virtual é ser “desterritorializada” podendo gerar manifestações concretas em tempos e lugares distintos sem estar preso a eles.
Sabemos que os temores ao computador enumeram muitas características, mas nos ateremos a que se apresenta. Segundo Borba & Penteado (2003), para o professor, sair da zona de conforto e entrar na zona de risco é pagar um preço muito alto pela tecnologia.

"Quanto ao professor, as mudanças envolvem desde questões operacionais – a organização do espaço físico e a integração do velho e o novo – até questões epistemológicas, como a produção de novos significados para o conteúdo a ser ensinado. São mudanças que afetam a zona de conforto da prática do professor e criam uma zona de risco caracterizada por baixo índice de certeza e controle da situação de ensino (2000, p. 23)."

Para manter-se em uma zona de risco o professor deve se movimentar constantemente em busca de novos conhecimentos o que define a ele um planejamento constante, um professor-pesquisador, um professor-reflexivo. O professor tem que se dar conta que não possui todo o conhecimento necessário para estimular a construção de conhecimento junto aos seus alunos.
É preciso quebrar o mito tecnológico criado pela inserção do computador nos meios educacionais. Segundo Penteado (1997).

"Para muitos professores, o computador é um mito, ou seja, existe a idéia de que ele é um instrumento muito poderoso e que exige pessoas altamente qualificadas para manuseá-lo, o que provoca medo, insegurança e calafrios no primeiro contato. Há o medo do desconhecido, medo de mostrar incompetência perante os colegas, medo de danificar a máquina e causar prejuízos, medo de não conseguir desenvolver as competências em informática (PENTEADO, 2000, p. 29)."

Além de quebrar o mito é preciso que os professores sejam parceiros no processo de inserção dos computadores na escola assim como na construção de softwares que atendam às realidades de cada situação docente

No processo de planejamento e desenvolvimento do ensino a utilização de meios, os quais denominamos tecnologias, tem algumas características que resgatamos de Castaño (2001, p. 301), que derivam de conclusões de pesquisas realizadas por Area (1991) e Castaño (1994), sendo elas:
  • Os materiais textuais (livros-texto e guia) são os recursos que, preferencialmente, o professor usa para planejar o seu ensino.
  • Conforme o anterior, o professor costuma investir pouco tempo nas tarefas relacionadas com a elaboração, seleção e organização dos meios e materiais de ensino.
  • O pensamento do professor e, principalmente, as suas concepções do ensino e desenvolvimento da matéria parecem incidir na tomada de decisões de planejamento e instrutivas sobre meios.
  • O professor quer que os meios e materiais de ensino permitam uma utilização flexível e alternativa, adequando-os às características de seus alunos e aos conteúdos que desenvolve.
  • No entanto, longe de integrá-los em seu trabalho, os professores tendem a fazer um uso suplementar e intermitente dos meios e materiais de ensino e a utilizá-los de maneira formal e mecânica.
  • A natureza inovadora do material, se não for acompanhada de ações de apoio e orientação a professores, por si só, não tem capacidade suficiente para gerar mudanças na prática metodológica. A ausência de um conhecimento abrangente da filosofia do material, da sua integração curricular e das implicações do mesmo para a aprendizagem da parte dos professores provoca que os mesmos sejam usados de uma maneira formal e mecânica.



Na luta contra essa resistência surge “um novo desafio docente que é a competência de trabalhar com informações, ter competência para pesquisá-las, associá-las e aplicá-las às situações de interesse do sujeito do conhecimento“ (PAIS, 2002, p. 23).
Percebemos que o desenvolvimento tecnológico é bastante amplo e complexo, atingindo toda a sociedade, com sua ecologia virtual, e a escola não poderia se anular nesse processo. É importante incorporar as novas tecnologias ao processo educativo, porém a questão tecnológica vai mais além. Criaram novas formas de comunicação; novos estilos de trabalho; novas maneiras de acessar as informações; e novas formas de produção de conhecimento. Entender e absorver toda essa rede será difícil, porém nos permitirá criar novas práticas de ensino, mais significativas, para a escola da atualidade.

Prof. Ms. Eduardo Vianna GaudioUFES / UNIVILAVitória/ES