Sentem, logo existem.
Além do uniforme e notas
Por: Paulo Roberto
No nosso dia a dia de aula/corredor/aula, nos esquecemos de mantermos um relacionamento mais humano com os nossos alunos.
Na verdade a estrutura espaço-temporal do ensino numa escola, não nos favorece um maior contato intra corpo docente e entre nós e os nossos alunos. Que pena. Pelo menos para mim isso é uma realidade, na qual ainda estou tentando me enquadrar para dar conta de cumprir prazos, e de uma maior proximidade afetiva e igual com os alunos.
Não falo daquela coisa estereotipada, e pró forma, de sorrisos e tapinhas, ou notinhas simpáticas. Falo de uma maior intimidade, que nos faça ver nossos alunos como alguém que tem família, trabalho, problemas, qualidades, preferências, direitos, deveres e necessidade de afeto, não apenas um número que ao final do ano letivo terá quatro notas que lhe habilitará ou não a seguir a diante.
As entrevistas feitas não têm grandes pretensões, de descortinarmos essências individuais, ou mesmo de termos uma idéia bem clara do que pensam, isto ficou claro para mim, pois estávamos no ambiente escolar, num daqueles tempos imprensados entre uma turma e outra. Para muitos deles a entrevista deve ter sido vista provavelmente como mais um dever de sala de aula, quem sabe?
Durante os meses de outubro e novembro deste ano, estivemos com alguns de nossos alunos da segunda série conversando entre outros assuntos, sobre a Escola, o Ensino, seus valores e auto-estima. Fizemos entrevistas individuais entre uma aula e outra e conseguimos retirar de muitos deles opiniões bastante sinceras, apesar do desconforto que alguns deles se encontravam.
Fizemos os seguintes questionamentos aos alunos: Defina quem é você? O que gosta e o que não gosta em você? Como eles se viam como alunos, o que deveria mudar na sua escola, no ensino? Um bom professor; o que seria? Conhecimento para que? O mais importante nas suas vidas?
Escolhemos seis moças e quatro rapazes, e formulamos as mesmas perguntas. Suas idades giram entre 17 e 38 anos; entre eles alguns já trabalham, e uma das alunas reingressou nos estudos depois de casada, e já com um filho.
Todos os rapazes, responderam que são: “legal”, “simpático”, “brincalhão”. Vinícius de17 anos, um pouco mais a vontade, falando de si, e sério; arriscou: “Sou um cara legal, simpático, extrovertido, eu acho que sou bonito, as pessoas acham que eu sou!”. As respostas foram reduzidas, e neste caso, as qualidades predominantes, foram ligadas aos aspectos de seus relacionamentos.
As alunas bem mais articuladas em sua maioria, apontaram visões pessoais bastante abrangentes. Aspectos positivos e outros nem tanto aparecem como respostas. A aluna Liliana acha que é muito “difícil as pessoas se definirem”, mas reconheceu ser alegre. Características como “curiosa”, “humilde”, “simples”, “tímida”, “ter bom relacionamento com todos”, ”teimosa”, “reflexiva”; mostram que elas tendem de um modo geral a expressar a diversidade existente entre elas.
Nos aspectos pessoais que eles não gostam de ter, apareceram a timidez, o excesso de extroversão, serem chatos por falta de limites nas brincadeiras. Já as meninas sempre mais atentas aos seus sentimentos, ou pelo menos mais “sensíveis” a sua importância, olham outros aspectos. A aluna lastima ter às vezes “alguns pensamentos negativos em mim” “Às vezes não acredito em mim mesmo”. Outras características indesejáveis seriam; a “preguiça”, “intolerância”, “timidez”, o “orgulho”; a rigidez nos sentimentos. Veja o que disse Miriam Martins; “Quando estou com raiva da pessoa, eu saio descontando tudo nela, não quero saber o que vai acontecer” embora reconheça que “a gente tem que amar aos inimigos!”. Elikássia curiosamente disse: “sou um pouco orgulhosa. Quando brigo com alguém, se eu não chegar na no início na pessoa; o orgulho aumenta. Fica mais difícil de perdoar.”
O valor que todos deram ao Conhecimento, foi de certa forma uniforme; pensam ser ele importante para o mercado de trabalho, para a vida, para evolução pessoal.
Todos os alunos foram categóricos em qualificar as virtudes do Bom Professor; vejamos algumas das declarações: Douglas acha que é “alguém que se importa se o aluno está aprendendo ou não. O que é preciso para que aprenda”, já Tiago vê a necessidade de além de explicar “ter amizade, e se dar o respeito”, Taiane acha que o professor deve “passar interesse para o aluno”,a paciência também foi lembrada por Miriam Martins. Veja o comentário de Liliana de16 anos:”Tem professor que é super ignorante. Esquece que o aluno tem uma vida lá fora.”, “tem professor que não vê o aluno como ser humano!”.
Fernanda completa: ”não é só estar ali por causa do salário; é saber dar uma boa aula, prender o aluno...”.
Como estamos vendo os alunos estão sempre atento. Penso que as “possíveis carapuças”, que nos mostram,são verdadeiras e muitos de nós já não a vestem.
Mudanças necessárias como implantação de laboratório de Informática, ativação da piscina, laboratório científico para práticas, mais uma sala de vídeo, maior uniformidade de informação dos funcionários, foram lembradas como mudanças desejadas. Também a circulação de pessoas estranhas à escola além de curiosamente o excesso de namoro no interior da nossa escola.
Concluí as entrevistas, pedindo para que apontassem o que seria a coisa mais importante para eles na vida?
Todos incluíram a família; mas também aparece Deus, amigos, a dignidade no que se faz, amar ao próximo como um irmão, a falta de preconceito, a vontade de vencer.
Agradecemos aos alunos que aceitaram participar desta reportagem. Acredito que bate-papos semelhantes a estes, em que todos possam aprender a falar de si, sem receios, é um excelente instrumento para o estreitamento dos laços entre todos nós, com conseqüente aumento de respeito aos limites e diferenças entre todos nós.
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